Saúde integral
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Canabidiol: para que serve, benefícios e efeitos

O canabidiol, também conhecido pela sigla CBD, é um dos canabinoides presentes na Cannabis e tem sido estudado para diferentes aplicações na área da saúde.

Embora o interesse pelo uso medicinal do CBD tenha aumentado, é importante diferenciar os tratamentos para os quais já existem evidências clínicas mais consistentes daqueles que ainda estão em investigação.

Atualmente, as evidências mais sólidas estão relacionadas ao uso do canabidiol como tratamento adjuvante em algumas formas de epilepsia de difícil controle. Para outras condições, como dor crônica, ansiedade, transtorno do espectro autista e alterações do sono, existem pesquisas, mas os resultados ainda não permitem considerar o CBD um tratamento estabelecido de forma geral.

No conteúdo a seguir, você vai entender para que serve o canabidiol, como ele age no organismo, quais são seus possíveis benefícios e efeitos colaterais e como funciona o acesso aos produtos de Cannabis medicinal no Brasil.

O que é e para que serve o Canabidiol?

O canabidiol (CBD) é um dos canabinoides presentes na Cannabis. Ele pode ser utilizado como princípio ativo ou componente de produtos destinados a tratamentos específicos.

Atualmente, a aplicação com evidência clínica mais consistente é como tratamento complementar de algumas epilepsias de difícil controle, principalmente as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut e crises associadas ao complexo de esclerose tuberosa.

Um estudo publicado em 2022 envolvendo 1.034 pacientes, mostrou como resultado a redução da frequência de crises com o CBD em comparação ao placebo nessas condições.

Segundo a médica Tamires de Carvalho Gonçalves, essa é justamente a aplicação em que as evidências científicas são mais consistentes.

“A evidência clínica mais consistente para o canabidiol está no tratamento adjuvante de algumas epilepsias de difícil controle, especialmente as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut e o complexo de esclerose tuberosa”, explica.

No entanto, para outras condições o cenário é diferente. Há pesquisas sobre possíveis aplicações em dor crônica, ansiedade, alterações do sono, transtorno do espectro autista e doenças neurodegenerativas, mas as evidências ainda são insuficientes e heterogêneas, com resultados que variam entre as condições estudadas .

“Por isso, ainda são necessárias pesquisas maiores para entender em quais situações o CBD pode realmente trazer benefício.”, ressalta.

Qual a diferença entre CBD e THC?

Imagem de óleo de CBD e planta Cannabis
CBD e THC são canabinoides encontrados na Cannabis, mas apresentam características e efeitos diferentes.

CBD e THC (tetraidrocanabinol) são canabinoides encontrados na Cannabis, mas apresentam características e efeitos diferentes no organismo.

O THC é o principal composto psicoativo da Cannabis, podendo modificar a maneira como a pessoa percebe o ambiente e experimenta suas sensações. O CBD puro não apresenta esses mesmos efeitos. 

Como destaca a Organização Mundial da Saúde (OMS), o CBD puro não apresenta as propriedades psicoativas típicas do THC.

Isso não significa que o CBD seja uma substância sem efeitos sobre o organismo ou sem riscos. Ele pode provocar reações adversas e interagir com outros medicamentos, o que torna necessário acompanhamento profissional.

Como o Canabidiol age no organismo?

O canabidiol atua em diferentes sistemas do organismo. Um deles é o sistema endocanabinoide, uma rede de comunicação envolvida na regulação de diferentes processos fisiológicos.

“O sistema endocanabinoide é uma rede de comunicação do nosso corpo que participa do controle de funções como atividade do cérebro e dos nervos, percepção da dor, sono, humor e resposta do sistema imunológico”, explica Tamires.

Esse sistema inclui substâncias produzidas pelo próprio organismo, chamadas endocanabinoides, além de receptores envolvidos na transmissão desses sinais, principalmente CB1 e CB2.

Entretanto, a ação do CBD não consiste simplesmente em ativar esses dois receptores.

“O CBD não age simplesmente ‘ativando’ esses receptores. Ele pode influenciar o funcionamento desse sistema e também interagir com outras estruturas do organismo, incluindo mecanismos relacionados à serotonina e à percepção da dor”, detalha a médica.

Essa atuação em diferentes mecanismos também ajuda a explicar por que os efeitos não são necessariamente iguais para todas as pessoas.

“Por atuar em diferentes mecanismos ao mesmo tempo, os efeitos do CBD são complexos e podem variar de acordo com a condição tratada, a dose utilizada e as características de cada pessoa”, acrescenta.

Quem pode usar o Canabidiol?

Não existe um único perfil de paciente que possa utilizar canabidiol. A indicação depende da condição clínica, evidências disponíveis e de uma avaliação individualizada realizada por um profissional habilitado.

O mesmo vale para produtos popularmente chamados de óleo de canabidiol. A composição e a concentração podem variar entre produtos, e o fato de uma formulação conter CBD não significa que ela seja indicada para qualquer pessoa ou problema de saúde.

Antes da prescrição, devem ser considerados fatores como:

  • diagnóstico, sintomas e objetivo do tratamento;
  • idade do paciente;
  • tratamentos já realizados e seus resultados;
  • medicamentos e outros produtos utilizados continuamente;
  • histórico de reações adversas;
  • função hepática e outras condições clínicas;
  • possibilidade de interações medicamentosas;
  • gestação ou amamentação.

“O primeiro passo é uma avaliação médica individualizada, que considera a condição de saúde, os tratamentos já realizados, o objetivo do tratamento, outros medicamentos em uso e possíveis contraindicações”, orienta Tamires.

Quais doenças crônicas podem ser tratadas com Canabidiol?

O nível de evidência científica para o uso de CBD varia bastante entre as condições estudadas. Por isso, não é adequado considerar todas as doenças investigadas como indicações estabelecidas. Entre as principais condições estudadas estão:

  • Síndrome de Dravet: ensaios clínicos demonstraram redução de crises convulsivas com CBD associado ao tratamento antiepiléptico convencional. Uma revisão sistemática com meta-análise encontrou evidências favoráveis ao tratamento adjuvante com CBD em pacientes com síndrome de Dravet, Lennox-Gastaut e complexo de esclerose tuberosa;
  • Síndrome de Lennox-Gastaut: estudos controlados demonstraram redução de crises de queda em pacientes tratados com canabidiol como terapia adjuvante. Em um ensaio clínico randomizado publicado no New England Journal of Medicine, os grupos tratados com CBD apresentaram redução maior das crises de queda do que o grupo placebo;
  • Complexo de esclerose tuberosa: um ensaio clínico randomizado envolvendo 224 pacientes encontrou redução significativa das crises associadas à doença com CBD em comparação ao placebo;
  • Dor crônica: existem pesquisas sobre o uso de CBD para diferentes formas de dor, mas os resultados ainda não permitem considerá-lo um tratamento estabelecido de maneira geral;
  • Transtorno do espectro autista: há pesquisas sobre CBD e formulações ricas em CBD, porém as evidências disponíveis ainda são limitadas;
  • Doenças neurodegenerativas: pesquisas investigam possíveis propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e neuroprotetoras do CBD, mas ainda faltam evidências clínicas robustas para estabelecer seu uso no tratamento dessas doenças;
  • Alterações do sono: o CBD também vem sendo estudado nesse contexto, mas os resultados disponíveis ainda não sustentam seu uso como tratamento estabelecido para insônia.

Quem tem transtorno do espectro autista pode tomar Canabidiol?

O uso de canabidiol em pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) tem sido um tema cada vez mais investigado, mas a evidência atual ainda não é suficiente para estabelecer o CBD como tratamento comprovado para o autismo.

Alguns estudos apontam possíveis efeitos sobre determinados sintomas associados ao TEA, mas há diferenças importantes entre formulações, doses, características dos pacientes e métodos utilizados nas pesquisas. 

Além disso, parte dos trabalhos utiliza produtos que combinam diferentes canabinoides, dificultando atribuir os resultados especificamente ao CBD.

“Existem estudos sobre o uso do CBD, mas até o momento não há eficácia comprovada que permita recomendar o CBD como tratamento estabelecido para essas condições”, explica.

Por isso, a possibilidade de uso em uma pessoa com TEA deve ser avaliada individualmente pelo profissional responsável pelo acompanhamento, considerando sintomas, tratamentos já utilizados, possíveis riscos e as evidências científicas disponíveis.

Quais os possíveis benefícios do Canabidiol?

Imagem de uma mão segurando um vidro de óleo de Canabidiol
O uso do canabidiol em casos de epilepsias resistentes ao tratamento é o benefício com maiores evidências clínicas.

Os possíveis benefícios do canabidiol dependem da condição clínica analisada. Atualmente, a redução de crises em algumas epilepsias de difícil controle é a aplicação respaldada pelas evidências clínicas.

“O benefício com melhor evidência é a redução da frequência de crises em algumas epilepsias de difícil controle, quando o CBD é utilizado como tratamento adjuvante”, resume Tamires.

Para outras condições, existem estudos que investigam possíveis benefícios, mas os resultados ainda não permitem afirmar que o tratamento funciona de forma comprovada.

Abaixo, entenda o efeito do canabidiol em diferentes condições:

Efeito neuroprotetor em doenças degenerativas

Estudos experimentais têm investigado mecanismos potencialmente relacionados a efeitos neuroprotetores do CBD, incluindo sua atuação sobre processos inflamatórios e estresse oxidativo.

Esses mecanismos despertaram interesse em possíveis aplicações em doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer. Entretanto, existe uma diferença importante entre demonstrar um mecanismo biológico em estudos experimentais e comprovar que um tratamento melhora sintomas ou altera a evolução de uma doença em seres humanos.

Portanto, o possível efeito neuroprotetor permanece como uma área de pesquisa e não deve ser interpretado como comprovação de que o canabidiol previne ou interrompe doenças neurodegenerativas.

Alívio de dores crônicas

A ação do CBD em mecanismos envolvidos na transmissão e modulação da dor é uma das razões pelas quais a substância vem sendo investigada para pacientes com dor crônica.

Algumas pesquisas sobre Cannabis medicinal utilizam formulações contendo CBD e THC em conjunto, o que impede atribuir automaticamente eventuais resultados positivos ao canabidiol isolado.

“Existem estudos sobre o uso do CBD, mas até o momento não há eficácia comprovada que permita recomendar o CBD como tratamento estabelecido para essas condições”, afirma a médica.

Redução de crises de epilepsia

A redução de crises em determinadas epilepsias resistentes ao tratamento é o benefício do canabidiol que conta com evidências clínicas mais consistentes.

No complexo de esclerose tuberosa também há estudos que mostram redução significativa das crises associadas à doença.

Nesses casos, é importante destacar que o canabidiol foi estudado como tratamento adjuvante, ou seja, associado a outros medicamentos, e não como substituto automático da terapia já utilizada pelo paciente.

Ajuda na qualidade do sono

O sono é outra área em que o canabidiol vem sendo investigado, mas ainda não há evidência suficiente para considerá-lo um tratamento estabelecido para insônia.

Alguns estudos identificam possíveis efeitos sobre aspectos do sono, enquanto outros não encontram diferenças clinicamente relevantes. As pesquisas também apresentam variações importantes de dose, duração do tratamento e perfil dos participantes.

Por isso, embora existam pesquisas sobre CBD e sono, ainda são necessários estudos maiores e mais consistentes para esclarecer sua eficácia.

Leia também: como melhorar a qualidade do sono?

O Canabidiol apresenta efeitos colaterais?

Sim, o canabidiol pode apresentar efeitos colaterais ou riscos, especialmente quando utilizado em doses inadequadas ou por interação com outros medicamentos.

Entre os efeitos adversos observados em estudos clínicos estão:

  • sonolência;
  • diarreia;
  • redução do apetite;
  • fadiga;
  • alterações nas enzimas do fígado;
  • possíveis interações com outros medicamentos.

Tamires ressalta que esses riscos fazem parte da avaliação sobre a indicação do tratamento.

“O CBD também pode causar efeitos adversos e interagir com outros medicamentos, por isso seu uso deve ser acompanhado individualmente”, alerta.

Isso reforça a importância de informar ao profissional de saúde todos os medicamentos, suplementos e outros produtos utilizados antes de iniciar o tratamento.

O Canabidiol pode causar dependência?

As evidências disponíveis indicam que o CBD puro não apresenta o mesmo potencial de abuso e dependência associado ao THC.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a partir da avaliação de seu Comitê de Especialistas em Dependência de Drogas, preparações consideradas de CBD puro não demonstraram potencial relevante de abuso ou dependência.

Isso não significa que qualquer produto derivado da Cannabis apresente o mesmo perfil. A composição precisa ser considerada, especialmente quando há presença de THC ou de outros canabinoides.

Também não significa que o CBD deva ser utilizado sem orientação: como visto, a ausência de evidência de dependência não equivale à ausência de efeitos adversos, contraindicações ou interações medicamentosas.

Qual profissional de saúde pode prescrever o uso de Canabidiol?

Não existe uma única especialidade médica responsável pela indicação do uso do canabidiol. O profissional que pode prescrever e acompanhar o caso dependerá da condição clínica.

Por isso, o acompanhamento deve estar relacionado à condição que motivou a indicação e não apenas ao uso do canabidiol em si. A resposta ao tratamento, os efeitos adversos e possíveis interações com outros medicamentos também precisam ser avaliados ao longo do uso.

Como ter acesso ao Canabidiol legalmente no Brasil?

Existem diferentes formas regulamentadas de acesso a produtos derivados de Cannabis para fins medicinais no Brasil. O caminho depende do produto prescrito e da modalidade de acesso.

“No Brasil, a Anvisa estabelece as regras para fabricação, importação e comercialização dos produtos de Cannabis para uso medicinal”, explica Tamires.

Em 2026, a regulamentação passou por uma atualização. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a RDC nº 1.015/2026 atualizou o marco regulatório para a Autorização Sanitária de produtos de Cannabis para uso medicinal humano.

A nova regra entrou em vigor em 4 de maio de 2026. Em julho de 2026, a Anvisa também publicou um documento de perguntas e respostas para esclarecer as novas regras.

Uma das possibilidades de acesso envolve produtos de Cannabis regularizados para comercialização no país, mediante a prescrição correspondente.

Outra é a importação excepcional para uso próprio. A regulamentação brasileira permite a importação de produto derivado de Cannabis por pessoa física para uso próprio mediante prescrição de profissional legalmente habilitado, observados os requisitos aplicáveis.

A Anvisa mantém uma página com as orientações para importação de produtos derivados de Cannabis, incluindo informações sobre autorização e prescrição.

A forma adequada de acesso, portanto, depende do produto e da modalidade utilizada.

“Para o paciente, o acesso depende do tipo de produto e da forma como ele será obtido, seguindo as exigências sanitárias e a prescrição correspondente”, explica Tamires.

Por isso, quem considera o uso medicinal do canabidiol deve começar pela avaliação de um profissional habilitado. É a partir da condição de saúde, das evidências disponíveis, dos tratamentos anteriores, dos medicamentos em uso e das características individuais que pode ser avaliado se o CBD faz sentido como opção terapêutica e qual é a forma adequada e legal de acesso.

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